Todos nos lamentamos de algo. Seja da vida que não corre como queríamos, dos objectivos que não alcançamos, da sorte que não chega, do trabalho que não corre, que corre demais ou que corre e não corre bem… O rol é grande e quase interminável. Mas, acreditando nas velhas palavras “quando se fecha uma porta abre-se uma janela” há sempre alguma coisa que vem para nos animar, acalentar a esperança, desvanecer a mágoa ou a dor que assombra a vontade no amanhã.

Depois de mais uma noite de trabalho, numa semana difícil e dura, quando o cansaço já abunda e a saturação reina é bem preciso um incentivo. E ele lá vem. Ouvir pequenas palavras vindas de um pequeno rapaz, projecto de gente em crescimento, encerrando a verdade ingénua do seu pensamento quando diz “Lá vem o Super Enfermeiro!” com um sorriso verdadeiro que faz derreter corações. Chegar e encontrar no placard o desenho quase impressionista da realidade vista pelo olhar de quem só há pouco tempo experimenta este mundo e ter o teu nome por baixo de um boneco que, simplesmente, sou eu. Ou mesmo encontrar uma fotografia, com algumas palavras anexadas, deixada simbolicamente como agradecimento especial ao trabalho e simpatia, em boa da verdade, não mais que disponibilidade prestada e cedida a quem só vê um mundo de dor, pressa e desconhecido sofrimento…

São estes os alentos do amanhã, quando tudo o resto falha, a vida deixa pequenos presentes espalhados para te fazer sorrir e continuar…

… e é por isto que eu continuo!




"Paixão sem Amor acaba. Amor sem Paixão esmurece."

Não são palavras minhas mas não consigo encontrar o autor...

Estava eu em plena pasmaceira diurna, com a moleza em que o sol de hoje me fez mergulhar, quando resolvi tomar um banhinho. Em casa dos papás, durante o dia, obviamente sozinho, deixei o computador a tagarelar alto as músicas mais recentes que estou a ouvir e lá fui para a casa de banho. Coisitas preparadas, após um bocadito, (que isto quando não é em nossa casa demora sempre um pouco mais a angariar o necessário) e lá vai de despir. Neste entretanto oiço, para meu espanto, o autoclismo no WC ao lado. Ora, com a toalha a tapar as partes mais impróprias de se ver expostas, neste contexto claro, lá fui eu ver o que raio, ou melhor, quem raio estava em casa para além de mim. E não é que foi isto que vi sair de lá…



?

Pergunto-me algumas vezes se este lugar tem leitores. E se os tiver o que esperarão eles deste lugar. A verdade é que sendo este o meu lugar, não é se não uma ínfima parte de mim onde algumas ideias, pensamentos, sensações, impressões, sentimentos e realidades vagueiam e surgem expostos e partilhados, ao sabor do que dita a minha vontade para o fazer. Este lugar não tem, nunca teve e duvido que algum dia venha a ter carácter de diário da minha vida pois, para além de pouco interesse, a isso nunca me consegui obrigar. Sou um eterno auto-indomado ganhando a minha vontade contra a minha determinação própria – sempre!

Estou quase sobre directa e ditou a minha vontade caprichosa que, em vez de dormir, hoje seria actualizado este espaço. Um post diferente. Desta vez: um relato de mim e do meu dia, porque também os vivo… Têm dito, algumas bocas críticas e sempre bem-vindas, que o blog está demasiado “deprimente”. Um melodrama constante e quase contínuo, quase sempre, em tons que roçam o poético. E em resposta a esses digo apenas que pouco mais sobra da minha realidade se não essa constatação melodramática da mesma.

Tão frequente, ouvimos nós dizer, que o dia começa com o amanhecer e um belo despertar. Pois, por muito que os tivesse procurado hoje, não os encontraria! Assombrado por uma insónia que deitou por terra quaisquer planos de deitar cedo e conseguir um sono reparador e rejuvenescente não me foi assim possível despertar, deixando-me o dia de hoje sem começo certo e o dia de ontem com final incerto. O trabalho decorreu com a agradável reviravolta da transformação do que seria um dia difícil e agitado na calma e facilidade de uma nova experiência. Embora deva fazer um pequeno reparo crítico à organização profissional e burocrática do mundo cinzento e emaranhado que é o Hospital de Santa Maria! E seguir-se-ão alguns dias de bom descanso, pelo menos assim espero.

Já em casa, fui abatido por uma leda pasmaceira que me arrastou para um estado de quase prostração e pé ante pé caminhando para o sono que acabou por se dissipar com chamadas telefónicas e investidas na internet – forte dependência de um ser solitário – qual espelho mágico da bela adormecida que por vezes não o é em sonhos mas sim na vida. E nesse espelho mágico surgiu a agradável surpresa. O filme que há tanto tempo esperava e ansiava finalmente disponível – Do Começo Ao Fim.



Foi então do começo ao meio e não ao fim como seria de se esperar, pois o ficheiro estava afinal corrompido em metade, que vi de um trago único, quase sem respirar, esta trama única e profundamente provocante. A exposição da liberdade do amor verdadeiro despregado de sentido e empecilhos alegóricos que a ele são associados, quase como chumbos numa bóia que a fazem submergir em vez de emergir a luz da vida. Uma história de mim, de ti e de todos, tocante e envolvente, contada por belas personagens que envoltas numa fantástica realização construíram uma grande obra, mesmo ficando eu a meio dela. E, casualmente, já que tão perto quanto possível estamos do dia do pai, não deixar de notar uma menção à relação paternal e filial que de tão pura e reminiscente à natureza humana se torna, para lá da razão, tão verdadeira na percepção da essência do que somos na nossa verdade e brilhantemente aqui retratada. E esta não é mais se não a minha critica, obviamente.

O dia seguiu o seu rumo final na cadência lenta e aconchegante do sofá, da manta e do aquecedor perdido nas conversas, nos encontros e desencontros, no reviver do ontem e no planeamento do amanhã, na tentativa pouco clara de ajuda aos amigos… No alívio de nós mesmos e das nossas vontades, nos caprichos, e no final, ainda com algum tempo para o despego da realidade e mergulhando na sensação de pertença e envolvimento que os Irmão e Irmãs me permitem.

Do começo ao fim… foi mais um dia! E por fim dormirei, espero eu.


Não sou como um rio que corre mas como uma gota que escorre, do outro lado de um vidro, lá fora, nestes tempos chuvosos. Sem sentido ou rumo certo vagueia, ao sabor do vento, que mais para a direita ou mais para a esquerda, a vai empurrando sem vontade na descida que lhe cabe. Mas não solitária, muitas outras gotas, como ela, a cercam nesse caminho curvo e incerto. Tão iguais como diferentes de si mesma. E incerta é também a forma como ao fim chegará, na hipótese de chegar. Porque tudo não passa de hipóteses! E neste lema vai descendo o frio, rígido e intransponível vidro numa dança forçada, na qual, nem sempre se sai bem. Mas continua. E eis que numa dessas curvas, outra, quase como ela, surgiu. Outra como outras. Mas na sua vontade incerta surgiu a vontade certa de que o vento soprasse mais para a direita. Por coincidência o vento deu um pequeno suspiro que ela depressa aproveitou. Mas a cautela tomou-se de consciência e não se fundindo permitiu-se ficar lado a lado por esse caminho. Tão perto que quase se tocam, por vezes. Partilham agora a descida sinuosa na verdade, não plena mas sincera, da pequenez de gota que cada uma é e traz em si. Continua a descer. Perdida na incerteza de juntas continuarem. Perdida na vontade da outra. Perdida, mais ainda, no temor do que possa calhar como hipótese no vento que se sente. Porque tudo são hipóteses! E como certo está apenas o chão, como fim do vidro, dando fim certo ao caminho.



… amar, o amor. Ilógico, irracional, puramente sentimental, inqualificável, inquantificável. A essência da vida tão incerta e subjectiva. É atroz o sofrimento de quem não ama e sente, que o princípio da vida o leva a isso. Atroz o desespero daquele, que quando se despe de si, percebe o vazio do outro, na sua própria solidão. Atroz o desejo que o corrompe pela vontade de amar. Atroz o tempo da vida que passa a tentar amar, a querer amar. E atroz o momento em que cansado, frustrado, na espera do amor desiste de o fazer, de o ter, de o conseguir, quase que desistindo de parte da razão que o leva a viver, acordar e respirar.

E eis que um dia ama!

Mas o tormento não termina. Desta feita em plena competição com o enormíssimo sentimento que o preenche surge a dúvida da reciprocidade que dele exigimos. Sabermo-nos amados no outro. Sabermos até onde vai e chega o amor do outro por nós em prol do amor de nós pelo outro. Ou por outro lado, perdidos na dúvida nossa de até onde vai o nosso amor pelo outro! Mas tormento maior é o amor não correspondido. Aquele que enche o nosso mundo e a nossa vida mas se perde no campo da possibilidade falhada face à não resposta do outro. O amor é ser de duas almas e esse é o seu segredo: duas vidas que vivem em si a alma do amor na fusão das suas almas. E não esqueçamos ainda o amor desencontrado, quais caminhos errantes que se cruzam tarde ou cedo demais no tempo errante do destino…

Amor, sentimento, esse, de compreensão impossível!



Seria bom acreditar na mudança advinda da passagem do ano. Sentir que, no tempo constrito em que os relógios marcam às exactas 00:00, algo em nós muda na certeza de que tudo será melhor ou tão bom como até então. Algo que a partir da etapa simbólica de uma hora que expressa o nada – começo do tudo – nos permitisse a nós mesmos começar ou recomeçar o que vivemos ontem, vivemos hoje para podermos viver o amanhã não simplesmente vivendo, mais sim, sendo felizes na sua vivencia.

Porém, afogueados pela preparação e ansiosos pelo momento, perdemos os últimos instantes do ano entre contagens de passas, subidas a cadeiras e sofás, verificação da roupa nova, das cuecas azuis, do soutien vermelho, de um sem número de supérfluas superstições. Chegada a contagem decrescente tudo acontece depressa de mais e no final, já sem passas na mão, já no chão, ouvem-se as garrafas de champanhe a abrir e os copos a encher enquanto vamos cumprimentando todos com os votos sinceros, dizemos nós e eles, daquilo que tanto esperámos mas que nos esquecemos até aqui, e eis que brindamos e bebemos. E é então que sentimos o frio gélido que vem da janela aberta, de forma propositada para a entrada do novo ano, e nos apercebemos que tudo permanece igual e nada mudou. Somos nós e a vida, a mesma vida de antes, a mesma vida de sempre. Desvanecesse o sorriso, cai a farsa e ficamos nós, nus e crus perante aquilo que a nossa consciência e o nosso coração nos permite ver.

Este é o momento. Este retorno há percepção dura e real de nós mesmos permite-nos perceber o que para lá dos desejos, realmente temos necessidade que mude e se altere em prol da menor infelicidade merecida. A mudança essa, não eufemizada, é o mais difícil de concretizar, mas possível se a isso nos propusermos. É tudo um jogo de possibilidades entre os ganhos e perdas daquilo que somos e temos em personalidade e pessoa com o objectivo máximo não de sermos felizes, mas sim, sermos menos infelizes, pois a felicidade desvanecesse na impossibilidade de concretização face a complexidade e imprevisibilidade do ser humano.

É aqui que peço força e dedicação para a concretização da mudança. Mudar o que sei estar mal permitindo endireitar os caminhos tomados. Saber aproveitar a sorte que surge nos momentos em que a vida nos sorri e nos ajuda a levantar e seguir em frente. Não podemos mudar nada do que já construímos no tempo que passou mas podemos sempre construir algo de melhor no tempo que virá.

Boas construções a todos e a mim em todos os dias do ano 2010…

About this blog

É mais um Blog de um Homossexual que vive (ou tenta viver) a sua vida. Alguém convicto que a orientação sexual não é uma escolha, que não sou diferente e como tal a descriminação não faz sentido... Será que ainda posso acreditar no Pai Natal??!!

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